![]() TEXTOS RELACIONADOS | Na pele de um arquitecto As cidades querem-se mais humanas No meio de maquetas elaboradas à escala de construções de Lego, da salada russa que é o planeamento urbano e das pretensões ditatoriais das autoridades a quererem “meter o Rossio na Betesga”, alguém é chamado a intervir. São prazeres, desafios e dores de cabeça que cabem ao trabalho do arquitecto. João Miguel Duarte Ferreira tem décadas de experiência e é vencedor do prémio Valmor pelo projecto do Páteo Bagatela, em Lisboa. Nos remotos tempos em que o curso de arquitectura se fazia em seis anos, João Miguel era um aluno mediano. Desde cedo que gostava de desenhar e foi uma questão de tempo até se decidir pela arquitectura. «O pai de um amigo meu era escultor, ajudou-me a aprender a ver, a observar de forma crítica, a representar o que via e a exprimir-me pelo desenho», conta. | Versatilidade e muito suor | Muitos lápis e compassos mais tarde, saiu de Belas-Artes diplomado em Arquitectura. «Trabalho, perseverança e dedicação» são os pré-requisitos que considera necessários para uma carreira na arquitectura. Para ele, aquilo em que a profissão é exigente é o mesmo que a torna fascinante: «É uma actividade multidisciplinar (mexe com história, geografia, engenharia, sociologia) e de grande responsabilidade, porque o que se faz fica mesmo depois de desaparecermos.» Lema profissional? «Contribuir para que os outros tenham acesso a cidades mais humanas e usufruam de locais mais agradáveis para viver.» | O pior erro | Desde a ideia-embrião até à concretização física da obra existe um jogo de paciência que se aprende a gerir. «Tem de se analisar o local, as implicações, os problemas, os custos, o programa que o cliente pretende, etc.», descreve o arquitecto. A seguir, vem a menina dos olhos do projecto – a parte criativa. Durante o brainstorming, cria-se uma imagem que se vai focando aos poucos, até ganhar selo de qualidade para se materializar. A última fase é a prova dos nove: passar das maquetas para a realidade dura e palpável, que é, efectivamente, «a parte que dá um grande prazer». Na opinião de João Miguel, «não estar bem com a sua consciência» é o pior erro que se pode cometer. Quando assim é, fica o peso de «produzir qualquer alteração no meio envolvente com a qual não se concorda que, ainda por cima, em princípio, é definitiva». Vai mais além e aponta o dedo aos muitos casos em que não se respeita a harmonia e estética do meio envolvente. Aí, confessa, «passa a ser frustrante». | Savoir faire | Quando se trata de tomar em mãos a responsabilidade de erguer um edifício ou de reconstruir um pedaço de cidade, João Miguel enumera um autêntico livro de estilo que deve orientar o arquitecto. «É preciso ser-se determinado. Saber recusar e ter, acima de tudo, honestidade intelectual e de decisão para seleccionar prioridades e adaptar ideias à realidade.» Porque, afinal de contas, o arquitecto carrega «a responsabilidade de alterar o meio ambiente de forma permanente». E quando perguntamos qual é a sensação de receber um dos prémios mais conceituados do país responde, em tom modesto, «a sensação é boa, é a de vermos reconhecido o nosso trabalho, ainda por cima por não pertencermos a qualquer organização». 20.11.2006 |









