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LITERATURA
Jovem de 29 anos ganha Prémio Revelação Augustina Bessa-Luís
O que nasceu primeiro: as viagens ou os livros?
Por Andreia Arenga | info@mundouniversitario.pt
A primeira vez que decidiu que queria escrever para o resto da vida, foi depois de uma viagem até a América do Sul quando ainda estava a estudar Direito. Desde aí, as viagens e a escrita parecem misturar-se na vida de Raquel Ochoa. A jovem de 29 anos ganhou o Prémio Revelação Augustina Bessa-Luís com o livro ‘A casa-comboio’, a ser editado em Abril.

Foste a vencedora da primeira edição do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís. Em que medida este prémio é importante para ti?
É muito importante na medida em que um escritor sem leitores é um escritor diminuído ou com menos oportunidades de fazer aquilo que gosta. Este prémio dá-me essa possibilidade de chegar a mais pessoas e de dar a conhecer o meu trabalho, o que é óptimo.

‘A casa-comboio’ conta a história de uma família indo-portuguesa. Qual é a tua ligação com a Índia?
É uma ligação muito anímica, muito misteriosa, porque eu não tenho qualquer ascendência indiana. A primeira vez que fui à Índia, foi para acompanhar uma amiga que ia, ela sim, conhecer as suas raízes. Os pais dela eram de Damão, aliás, a história que eu conto é a história da família dela. Logo aí foi um amor à primeira vista que senti pelo país. Fui em 2001, depois voltei em 2002 e em 2007, já em parte para fazer a investigação para este trabalho, e quero voltar muitas mais vezes (risos). É um sítio onde me sinto muito bem, acho que compreendo muito bem aquelas pessoas e que elas também me compreendem. Temos uma linguagem muito semelhante, embora seja um sítio tão diferente do meu país. Há uma curiosidade muito grande (risos).

Como descobriste o gosto pela escrita?
Olha, de uma forma muito natural (risos). Fiz uma viagem até à América do Sul e vinha tão preenchida com essa experiência tão diferente de tudo o que já tinha vivido - isto de uma pessoa se alhear totalmente de onde vem e embrenhar-se noutra cultura - que quando voltei tinha a possibilidade e a vontade de me sentar um pouco e escrever. Para mim era um objectivo muito claro: se eu não escrevesse não iria conseguir andar com a minha vida para a frente e passar para outra fase. E pus-me a fazê-lo. Foi a primeira vez que senti que queria fazer aquilo durante toda a minha vida. E tenho continuado.

No entanto, és licenciada em Direito, porque é que escolheste essa área de formação?
Eu estava a tirar Direito e foi um curso que me deu muita bagagem, que até me foi útil para utilizar na literatura. Até porque o raciocínio jurídico é algo que ajuda bastante a tratar a informação, a estruturar ideias, a ser crítica em relação ao mundo. Mas a meio do curso percebi que não era essa a minha vocação. Quando estava a terminar o curso, os meus colegas queriam ir todos naquelas viagens de finalistas normais, para Cancun, Brasil...e eu não achava grande piada a isso. Então fui juntando dinheiro, tirei um ano de sabática e pensei fazer a minha viagem de finalista à América do Sul. Quando fiz essa viagem, apercebi-me de que o Direito era de facto algo que não iria estar presente na minha vida. Tive que assumir isso com alguma coragem porque quando estamos no mundo universitário sentimos que temos que escolher um curso e que se não somos licenciados, não somos nada no mundo actual em que vivemos. É importante ter essa ferramenta, mas não podemos ser completamente engolidos pelo sistema sem pensar sobre aquilo que queremos realmente fazer depois. É claro que isso implica alguns sacrifícios, mas hoje, quando penso nisso, fico feliz por ter tido a coragem de perceber que o caminho era outro.

As viagens estão sempre presentes na tua escrita. Porquê o tema das viagens e em lugares exóticos?
Em Portugal, como um amigo meu diz de uma forma brilhante, há os luso-descendentes e os luso-errantes. Eu faço parte dessa grande quantidade de população portuguesa que é luso-errante. Acho que é algo que já está nos genes. Nascemos num país muito pequeno, com os horizontes muito apertados que não nos dão tudo aquilo de que precisamos porque temos sede do mundo. E eu tenho muito essa sede de mundo, sempre adorei viajar e para mim as viagens são um ponto alto da minha vida, onde me realizo mais e que me faz aprender mais. Por isso, escrever e viajar para mim são duas coisas indissociáveis. Não sei se foi a viagem que me pôs a escrever ou se foi a escrita que me pôs a viajar. Entretanto, já se contaminaram as duas, já são duas coisas muito próximas uma da outra.

O trabalho de pesquisa para este livro foi dificil?
Acho que qualquer escritor ou autor faz uma coisa a que ele próprio se auto-propôs, à partida já sabe que aquilo lhe vai dar muito prazer e para mim funcionou dessa forma. Toda esta investigação foi feita ao longo dos anos de uma forma muito despretensiosa e sem grande objectivo. Até que em 2007 concentrei-me e quis reunir toda aquela informação e procurar aquilo que faltava. Como era um tema que me aliciava, foi um prazer enorme fazê-lo, por isso, não consigo dizer que foi dificil. Até foi fácil. Se foi trabalhoso? Sim, foi muito. Implicou muita dedicação e sem saber o que ia resultar. Porque é esse o trabalho de um escritor quando começa, nunca sabe muito bem o que é que vai construir.

Também és formadora na escola Escrever, Escrever. Há muitos jovens a interessarem-se pela literatura e pela escrita?
Fico completamente espantada, estou convencida que somos um país de escritores. As pessoas de uma forma geral escrevem bem. É pena não termos um país de leitores (risos). Há muito interesse pela escrita, é muito curioso ver que há muitos jovens a interessar-se e até mesmo idosos, que já chegaram a uma determinada fase das suas vidas e decidem que querem dedicar-se à escrita. Aquela é uma experiência muito curiosa e era interessante pensar em incluir nos programas da primária e do secundário uma cadeira de escrita livre para que as pessoas pudessem exercicitar. Escrever é um exercicio tão profundo e tão organizador das ideias, tão estruturante para a criança, para o adolescente e para os jovens em geral que devia ser encarado de uma forma mais séria.

Mas dizias que curiosamente as pessoas têm essa vontade de escrever, mas leêm pouco. Porque é que achas que isso acontece?
Bem, segundo os especialistas, felizmente essa tendência já está a ser mais quebrada. É um bocadinho contraditório, mas também tem a ver um bocadinho com a educação que as pessoas recebem, não só na escola mas também em casa. Uma pessoa que seja habituada a ler e a ter contacto com os livros desde pequena, nunca mais consegue deixar de ler. É como cortar o cabelo, como cortar as unhas, torna-se um hábito. Mas acho que esta geração já está a ler mais, se calhar antigamente as pessoas não tinham tanto acesso aos livros, mas neste momento já não há desculpas para não ler. É verdade que muitos livros ainda são caros e que a industria à volta dos livros muitas vees pode ser perversa, mas há outras formas de acesso à leitura. Espero que seja uma tendência a aumentar porque tida a gente fica a ganhar com isso.

A escritora que dá o nome ao prémio é uma referência para ti? Que outros escritores te inspiram?
Sim, é uma referência. Li a Sibila e na altura ainda não tinha a capacidade literária que tenho hoje, mas lembro-me que apesar disso gostei logo. Percebi logo que era uma boa escritora, embora a escrita dela naquela altura ainda me parecesse um bocadinho inalcansável. Mas realmente a Augustina Bessa-Luís é uma pessoa e uma autora ímpar. É um exemplo claro daqueles escritores autênticos e com uma forma muito pessoal de interpretar o mundo e a maneira como crescem a cada frase que escrevem. Quem a lê sabe. Os meus autores nacionais preferidos são por exemplo o Eça de Queirós, que é uma grande referência, e depois tenho vários outros, todos os clássicos para mim são bons. Gosto de Oscar Wilde, Julio Verne...dos mais modernos adoro Paul Auster, acho que é um autor com uma imaginação delirante...sei lá, são muitos.
08.02.2010
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