![]() | Reportagem: Milhões de Festa 2010, em Barcelos Um festival que cantou de galo e espantou os pardais O ar engalanado de Barcelos não enganava. Em vez de um certame, a rústica cidade minhota disparava dois certames musicais, o inevitável Milhões de festa, e o local 11º Festival de Grupos Musicais de Barcelos integrado na Semana da Juventude. A cidade que sabe bem receber – e que já no século XVI acolhia os peregrinos de Santiago de Compostela que lá paravam para lavar os pés na capela de Nossa Senhora da Ponte – abria agora as portas a uma juventude sedenta de música e de folia. UM MERGULHO COM O RUDOLFO O típico Sol do Verão português esbanjava calor sobre o empedrado das estreitas ruas da burlesca cidade do galo, uma localidade meio rural, meio industrial, que afincadamente luta contra a desertificação do interior do país. E é salutar caminhar por esta terra e a cada esquina encontrar uma população bastante juvenil. Na zona mais baixa da cidade, junto à zona ribeirinha, um recanto com duas piscinas e um minúsculo palco dava as boas-vindas a um público bastante jovem, que de grosso modo constituía a assistência desta festa. Ao primeiro concerto, entre mergulhos e desabafos de um simpático nadador salvador que, entre tanta água, penava por uma bebida fresquinha, Tren Go! Soundsystem proporcionou um bom ensaio do que se passaria por este recinto de banhos, onde muitos projectos novos portugueses emergiram do fundo do anonimato em que vivem. O one-man-band deu um concerto bem quente e foi acompanhado esporadicamente por um labrador retriever, que de trela curta vocalizava as músicas, numa alegria pertinente. A tarde ficou marcada pela música de atitude do Pokémom de chocolate, RUDOLFO. Uma semente diabólica a degenerar uma actuação no mínimo invulgar, para não dizer rara, deixando Barcelos num êxtase de pingos de ironia. Empurrões ao público, mergulhos nas piscina e sons de xilofone electrizantes, talvez samplados à Baby TV. Deixaram de rasto o público, mas apostamos que este artista do Porto seria capaz de mais, se lhe dessem espaço. UM ANFITEATRO IDÍLICO Deixando a piscina, havia que subir uns cem metros, para se entrar no recinto do Festival. Logo à entrada, um magnífico anfiteatro dava uma vista ímpar sobre o palco principal, protegido por altos e portentosos carvalhos, e logo atrás o rio Cávado. E até as badaladas que saíam do campanário da Igreja Matriz, junto ao lado norte da ponte medieval que data do século XIV, iluminavam sonoramente a secular cidade, gracejando a novidade festivaleira. A falta de um press-lounge, com informação de possíveis entrevistas às bandas, e se era possível fotografar as mesmas, foram a primeira nota negativa exposta no festival. Mas havia que matar a sede da canícula que ainda se fazia sentir naquela hora e não ligámos a isso. Foi então que nos deparámos com o sistema logístico que era preciso para se conseguir uma bebida. Pois para as três barracas do recinto onde as mesmas eram servidas, apenas um botequim, meticulosamente colocado ao lado do palco principal, efectuava a venda de senhas para algo fresco. Isto num festival onde iriam actuar perto de 60 bandas, muitas delas internacionais, era algo de provinciano. O pouco público inicial recebeu de braços abertos os primeiros concertos do Palco Milhões: Plus Ultra, The Glockenwise e Men Eater, intercalados com os do Palco Vice, Evols, Larkin, Sizo e Black Bombaim. A toada rock mais pesada tomou conta do primeiro, enquanto o segundo se pautou com um som mais energético e dançável. Da tarde, destacamos o rock cumpridor dos Sizo, que tiveram que lutar com um calor infernal, e o checksound dos Men Eater, para vencerem um excelente concerto. Do palco principal caía uma vassourada de metal e hard-rock mais alternativo, tendo o seu momento de apoteose com os Men Eater. Primeiro, quando André Henriques dos Linda Martini se juntou em palco à banda, e depois quando Valient Himself, dos Valient Thorr, acabou o concerto em palco com eles. Tudo corria bem nos palcos e o dia corria celeste, mas era hora de beber algo para acompanhar os petiscos. Quem não achou muita piada a isso foi a multidão que já se perfilava para conseguir senhas de bebida, perdendo tempo precioso do concerto dos Black Bombaim, na outra extremidade do recinto. DEUSES E FEITICEIROS Começou então bem o dia, no que à música concerne, que havia de melhorar, pois com uma massa humana já razoável, entoou do palco principal a banda sonora apocalíptica do fim dos tempos, anunciado lá nos inícios da vida, da saga hollywoodesca, ‘Conan O Bárbaro’. Série sobre um grande guerreiro que tinha como deus, o grande, implacável e maléfico Thorr. Era então o anúncio da entrada em palco dos muito esperados, astutos e energéticos, Valient Thorr. O deus da personagem que Arnold Schwarzenegger vestiu nos inícios da sua fabulosa carreira de canastrão dá então nome à banda que diz ter vindo de Vénus. E se assim é, no infernal e quente planeta, a música não é muito diferente das correntes mais mainstream do hard-rock norte-americano – as que vão povoando a rebeldia pronta a estoirar dos sutiãs das jovens emancipadas de seu corpo, e do imaginário dos adolescentes que esperam que isso aconteça. Mas o concerto fica para a história pela energia que a banda descarrega em palco e pela solicitude da simpática figura, sempre muito comunicativa, de Valient Himself, que com sua banda aqueceu a noite, para um momento que provavelmente ficará para a história de quem o testemunhou, o concerto dos Electric Wizard. Os Electric Wizard entraram a rasgar, a banda mais pesada do mundo, como alguns fãs querem fazer crer, e começaram logo com com uma mostra do atalho doom metal que lhes vai proporcionar uma longa e salutar carreira de metal psicadélico. A mistura de influências que vão desde dos iniciais trabalhos do Swans, salteada por riffs de guitarra de uns Iron Maiden num mundo slowcore, deu à soberba banda britânica o momento mais alto da noite! Quando acabaram o concerto ficou no ar a sensação que soube o pouco, e esperamos que voltem ao nosso país, para um concerto numa sala, com alguma brevidade. Na tarde do dia seguinte cruzámo-nos com as quatro aves raras da banda britânica na Rua António Barroso, principal artéria de comércio do centro histórico. Jus Oborn vocalista e líder, num passo ataviado à minhota, Shaun Rutter baterista a seu lado, a guitarrista Liz Buckingham, distraída num passo medieval e, finalmente o baixista Tas, que com o corpo todo tatuado, cara inclusive, afastava apopulação mais idosa, que jurava a pés juntos ter visto Satanás em calorosa e fatídica tarde. PLÁCIDA TARDE Ao segundo dia, a recepção no recinto ainda foi mais calorosa, não porque já se passasse alguma coisa nos palcos, mas sim porque com os tascos abertos e prontos a servir, refrescar as gargantas era tarefa árdua. Os locais onde se adquiriam as providenciais senhas já eram dois no segundo dia, e abriram com mais de uma hora de atraso em relação às portas. Era ver a juventude festivaleira, esquecida nas poucas sombras existentes, fazendo o recinto parecer-se com um campo de concentração de bebida racionada. Alguns, mais desesperados, já prometiam descer ao Cávado e dele saciar as ardentes goelas. Do palco Vice caíram então os primeiros sons, os acordes animalescos martelados pelos Aspen, lembraram logo a cordilheira sonora dos Rapeman, recordando mesmo no primeiro tema a incontornável música ‘Budd’. Depois, um estranho silêncio pairou sobre o recinto, o vento fazia-se ouvir nas árvores contíguas ao palco principal. Foi então que a natureza plácida da pop-folk dos Long Way to Alaska irrompeu em harmonia com o meio ambiente envolvente. O slow-afro-beat de temas como ‘Sicilian Relation(ship)’, fizeram deste um concerto lúdico, que a absorta plateia não esquecerá. Era como termos no mesmo palco Patrick Wolf e Andrew Bird para uma actuação incestuosa. Entretanto, e num segundo salto ao outro lado do certame, o Palco Vice vestiu o hábito de uns Tindersticks vocalizados por Sérgio Godinho, costurado por Tiago Ferreira, aka Cavalheiro. E se no dia anterior o peso do deus Thorr e do Demo eléctrico espantara a pardalada, por agora respirava-se um entardecer melancólico na margem norte do Cávado. E foi ainda àa luz do dia, que iluminava à distância os dois altivos campanários da Igreja de Barcelinhos, que os Appaloosa subiram ao palco principal, para se depararem com uma desoladora e fraca assistência. Menos de metade em relação à mesma hora do dia anterior. A diva francesa Anne-Laure Keib, que dá a voz ao duo, subiu ao palco com um vestido pronta para dançar e encantar, com um soft-electro que merecia melhor destino que uma plateia de cerca de 500 pessoas, a maior parte dela sentada no relvado. Quase que se ouviam os dedos de Max Krefeld pronunciarem-se no teclado do seu ‘laptop’ enquanto os seus pés batiam no chão, com a sua caricata e desengonçada dança. Anne-Laure Keib, ao longe, agitava-se e pulava como a Nico, e a sua voz também não andava longe da falecida cantora do Chelsea Girl. A forte influência do glamour dos Soft Cell com a luxúria de Serge Gainsbourg brilhava, fazendo mesmo esquecer a paupérrima moldura humana que vestia o festival. Nem quando dos colunas saiu ‘Fill The Blanks’ essa assistência se levantou do relvado, apenas uma zelosa funcionária de um bar se prostrou em frente ao duo, para com a sua sensual dança lhes dar um eterno e merecido elogio. Que acabou estragado por meia dúzia de fedelhos, que caminharam uns bons 50 metros, para se agarrarem às grades e pedirem Guns N' Roses, tratando o palco como uma cabine de DJ de província. Nem no Lambreta Bar ao lado da Casa da Juventude de Barcelos vimos tamanhas afrontas! Mas a cantora torneou a provocação e, com simpatia, apenas repetiu o nome da coisa com um inocente sorriso, que serviu de abençoado açoite para chichi e cama. HYPE WILLIAMS – UMA AGRADÁVEL CONFIRMAÇÃO Finda a actuação possível dos Appaloosa, o cerca de meio milhar de convivas deslocou-se num carreiro zombie até ao Palco Vice. Aí, o entusiástico e inovador projecto Hype Williams lançava a sua flamejante novidade sonora para fora do palco, e à segunda chama, já rendidos, abençoámos a maravilhosa cover do ‘The Sweetest Taboo’ de Sade Adu. Num espaço mais reduzido, foi diferente a recepção que conheceram em relação ao duo anterior. Actuando com um confuso enredado de aparelhos em cima de uma mesa, à frente um do outro, o casal mostrou o seu psicadelismo de samplagens e loops, com arrestas de culto. O som e as luzes do espectáculo lembraram, por momentos, o universo do filme ‘Blade Runner’. O ambiente já estava mais quentinho que a omeleta do dia anterior, decapitada durante o almoço no Garden, dois passos acima. Mas deixando a culinária, foi preciso puxar pelos PAUS para a coisa ficar mais condimentada, até porque se aproximava a hora de Mark E. Smith subir ao palco, e o panorama mobiliário ainda não era muito animador. Os PAUS lá começaram a bater nas baterias, com uma euforia no palco que se estendeu para a plateia, mas aquilo soava-nos a algo, aos Battles e ao ‘Atlas’ mais concretamente. Embora a sonoridade da nova banda portuguesa viva quase toda ela da banda de Nova Iorque, o público delirava e o concerto estava bom mas, estamos fadados a ser genéricos de algo, e a não ser o RUDOLFO, na piscina pouco vimos das bandas nacionais no que diz respeito a atitude e originalidade. Mas o Milhões de Festa aqueceu q.b. No fundo, os PAUS são uma banda cool, simpática mesmo, na moda e, dentro dos muitos genéricos que temos, pode-se dizer que são muito bons! Mas interrogávamo-nos ao mesmo tempo, sobre a ausência de bandas da nova editora do Porto, a Meifumado, que com projectos como os Paco Hunter e Mc Jiah, mesmo ali ao lado, ficaram em casa e foram esquecidos pela vizinha organização. Mas isso não são contas do nosso rosário. A DESILUSÃO MARK E. SMITH Avançando no festival, os PAUS lá levaram a água ao seu moinho e também já se via mais pessoas a deambular pelo festival. Adultos para os The Fall, turistas de ocasião e muitas, muitas, crianças à procura do Festival Panda. Ao longe, um electro-billy dos Alto soava agradavelmente das colunas, mas ainda assim não nos mexemos de onde estávamos, pois vinham aí 34 anos de história da música, e não queríamos perder pitada! Finalmente, o professor entrou em palco e, além da sua natural alienação para com o publico, Mark E. Smith parecia vergonhosamente embriagado. O tema da aula não seria só o freakshow, a que muitos que já assistiram nos concertos dos The Fall e gostaram. A sua voz estava mais enrolada que o normal, a sua pose moldada ao peso dos anos, cambaleava sobre o peso do álcool, mexendo nos amplificadores do palco. Perdido de um lado para o outro, embrulhado nos papéis do alinhamento, tentando agarrar a teclista, no fundo, o que Mark E. Smith procurava naquela hora era uma muleta que o agarrasse ao palco e ao concerto que deveria estar a dar. A música passou então para segundo plano, a produtora Lovers & Lollipops e a Câmara Municipal de Barcelos, mereciam mais respeito, até de um lendário de Manchester que também ele teve que começar uma banda do nada. Descalço de competências que lhe facultassem uma actuação, abandonou definitivamente o palco com meia-dúzia de temas, deixando o resto dos membros da banda amputados, embaraçados e a cumprir como podiam os despojos da música que conhecemos dos The Fall. Lembrámo-nos, então, de um mural que reza na fachada da Igreja de Santo António em Barcelos – «Ó glorioso Deus altíssimo, ilumina as trevas do meu coração, concede-me uma fé verdadeira, uma esperança firme, e uma caridade perfeita…» – porque é preciso uma paciência de santo, desses de bolso, para quem fez centenas de quilómetros perdoar o que se passou em palco. O GRANDE EL GUINCHO E, depois de tudo isto, o André Granada que nos desculpe o mau feitio, mas transmutar-nos de um concerto falhado dos The Fall para um mini set de house e electro experimental, é como mergulho encarpado para uma piscina sem água. Se ao menos fosse logo para ficar, era emborcar algo e esquecer. Mas vinha aí El Gincho, uma oportunidade única de acordar do pesadelo, que não desperdiçámos. Em boa hora o concerto começou, dissipando logo a apatia e a azia que sentíamos. Estes mariachis cibernéticos mereceram uma coroa de flores, a dança nasceu da plateia e também dos nossos pés, naturalmente. Mas caricato foi assistir a uma mini-invasão do palco, protagonizada por membros da organização. Isto num festival onde a maioria dos media presentes não tinha acesso ao backstage e a entrevistas. Alguns davam-se ao luxo de subir ao palco e, com a banda, partilhar e dançar o espectáculo. Mas não invejámos o lugar, pois cá de baixo víamos um dos melhores concertos dos dois dias. Só comparável às tripas à portuguesa que, em frente aos Paços do Concelho, D. António Barroso nos aconselhou no Restaurante Oliveira. O repasto ‘manchesteriano’ fora então azedo, mas por Barcelos comia-se bem. Sendo este El Guincho um dos melhores repastos. Fazendo então uma conclusão do festival de 2010 em Barcelos, até porque ao terceiro dia, tivemos que rumar a Sul. A Lovers & Lollipops tem pernas para andar, e o seu mais prodigioso filho, Milhões de Festa, tem tudo para se tornar num grande e alternativo festival. Apesar de tudo, o festão foi concretizado! BARCELOS ANTES DO FESTIVAL Por estes dias, o palco montado nas traseiras da Igreja do Senhor da Cruz, em pleno centro histórico, recebeu diversas bandas locais, a viverem mais de boa vontade e de aforismos da crise adolescente, que propriamente de música. Assim, na quarta-feira, 21 de Julho, a primeira banda a enfeitar o palco foram os Área Restrita, um grupo juvenil empolado na pose de um traje, de uma Dulce Pontes rockeira. Depois foi a vez dos Reciclagem 2B, uma aragem de samplagens e loops vocais, algo cativantes, sobre um olhar atento de um Saramago numa tela pintada a pastel de óleo, a fazer rodopiar folhas esquecidas no chão. Depois o hip-hop entrou em cena para não mais sair. O incessante apelo da música dos subúrbios das grandes cidades do litoral, também tem uma vasta colmeia de seguidores no interior, mas o destino da festa estava irremediavelmente traçado. Havia mesmo que esperar pelo Milhões de Festa para se fazerem soar melodias mais alternativas por Barcelos. 27.07.2010 |
comentários
finalmente uma reportagem muito bem conseguida que expressa da melhor forma o espírito ecléctico promovido pelo festival, e que, construtivamente, aponta as falhas que foram surgindo nesta edição.
parabéns
"(...) e esperamos que voltem ao nosso país, para um concerto numa sala, com alguma brevidade."
faço figas!!!!!!!!
P.S.: só um pequeno detalhe em "UM ANFITEATRO IDÍLICO" está escrito "liguámos"
Caríssimos: Ninguém é perfeito, e até os seres mais irrepreensíveis erram de quando em vez. O máximo que se pode fazer - e foi feito - é corrigir de imediato os enganos. De resto, não há altivez de espécie alguma. Houve, sim, um festival onde gostámos muito de estar presentes, independentemente de alguns aspectos menos bem conseguidos. Que o galo de Barcelos volte a cantar para o ano. ;)
Alguém aqui em baixo, tem de aprender a ler e a interpretar um texto. Não li um parágrafo depreciativo para Barcelos ou para a província, para lá com o Bairrismo pá•
Tanta altivez tipica de blogueiros da metrópole que fazem uma visita ao estranho mundo da província. Ai este Portugal distante e longínquo.
Tanta altivez deu em troca de sexo numa banda cabeça de cartaz (abençoada sabedoria) e em tamanhas imprecisões e inverdades que me faz duvidar se estive nos mesmos concertos que vocês.
Caríssimo Mike, acabaste de ganhar o prémio de "Leitor Mais Atento do MUndo"!! Obrigada pelas tuas indicações. Houve de facto uma troca de identidades que já foi devidamente corrigida. Grande abraço!!
A unica coisa negativa a apontar é que no final destes anos todos descobri que a Liz dos Electric Wizard é um homem e toca guitarra e o Tas é uma mulher...hahaha
Muito bom!! Vale a pena perder alguns minutos a ler este report. Delicioso!









