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Regresso às aulas
Quando o professor é o caloiro
É o regresso às aulas. Fugir a este assunto nos dias que correm é complicado. Mas, este ano, em vez de te falarmos da tua experiência como caloiro, fomos saber como é que foi o primeiro dia de faculdade dos teus professores. E mais, quisemos saber a sua opinião sobre as praxes e sobre os alunos mais “engraçadinhos”, o que começam com “piadolas” logo no primeiro dia.
Por Patrícia Tadeia | ptadeia@mundouniversitario.pt
BI
Cecília Barreira
Docente do departamento de Estudos Portugueses
Faculdade de Ciência Sociais e Humanas – UNL

Qual o curso e faculdade que frequentou? E em que ano entrou?
Entrei no curso de História na Faculdade Letras de Lisboa no antiquíssimo ano de 1976.
Como recorda o primeiro dia/primeira semana de aulas na faculdade?
O primeiro dia de aulas foi logo às 8 h da manhã com um professor muito importante e que inspirava muito respeito. Éramos 100 alunos.
Era uma faculdade com tradição de praxe?
Não havia tradição de praxe porque estávamos em tempo de revolução
O que pensa das praxes? Quais as vantagens e desvantagens?
As praxes têm muitas vantagens: integram mais facilmente os caloiros junto dos outros estudantes e do mundo académico. Às vezes, as praxes vão um bocadinho mais longe do que a integração do estudante e podem entrar na ridicularização do caloiro
Agora mais sobre os dias de hoje. Como é o primeiro dia de aulas, para o professor? Consegue perceber, desde logo, quem são os alunos engraçadinhos, ou os mais problemáticos?
O primeiro dia de aulas para um professor é de um extremo nervosismo, porque os jovens na faixa etária das licenciaturas são hipercríticos. Adoro alunos problemáticos ou “engraçadinhos”: dão cor às aulas. Quando um professor está verdadeiramente empenhado na sua docência nada estraga uma boa aula. É claro que há aulas e aulas, como há dias e dias. Nem sempre conseguimos o nosso objetivo. Mas, o prazer de estar perante um público crítico durante 2 horas é sempre uma experiência radical.



BI
João Costa
Docente do departamento de Linguística
Faculdade de Ciência Sociais e Humanas – UNL
Qual o curso e faculdade que frequentou? E em que ano entrou?
Estudei Linguística na Faculdade de Letras da UL. Comecei em 1990.

Como recorda o primeiro dia/primeira semana de aulas na faculdade?
Lembro-me de ser uma semana de alguma confusão, tentando descobrir como funcionavam as inscrições nas disciplinas e com informação muito difusa. Criava-se logo alguma cumplicidade entre os alunos do primeiro ano que tinham de "sobreviver" no meio da confusão.

Era uma faculdade com tradição de praxe? Se sim, o que lhe fizeram?
As praxes estavam a renascer nessa altura. Lembro-me de um dia de algumas brincadeiras e de haver uns tontos que pintavam qualquer aluno do primeiro ano que passava.

O que pensa das praxes? Quais as vantagens e desvantagens?
Tal como são feitas, acho-as bastante absurdas. Aquilo que se observa, na generalidade, são brincadeiras de mau gosto, de humilhação dos alunos mais novos pelos colegas mais velhos e gritaria com lemas de fraca qualidade. A integração dos novos alunos poderia ter um papel interessante e, em alguns casos, isso é feito, se os mais velhos assumissem um verdadeiro papel de comité de boas-vindas.

Agora mais sobre os dias de hoje. Como é o primeiro dia de aulas, para o professor? Consegue perceber, desde logo, quem são os alunos engraçadinhos, mais problemáticos?
É sempre um dia interessante, porque, como em qualquer outro nível de ensino, também no Superior é o primeiro contacto com um grupo de pessoas com quem queremos estabelecer uma relação produtiva. Há comportamentos que se observam desde o primeiro dia (a escolha do local para sentar, algum olhar desconfiado, a maior preocupação com o calendário apresentado) e que permitem começar a conhecer os alunos. Mas qualquer semestre de aulas é uma oportunidade excelente para ter surpresas. Gosto imenso da relação com os alunos e, por isso, o primeiro dia de aulas é sempre entusiasmante pela perspetiva de conhecer pessoas novas e com vontade de aprender.




BI
Sónia Lamy
Subdirectora do Curso de Jornalismo e Comunicação
Instituto Politécnico de Portalegre

Qual o curso e faculdade que frequentou? E em que ano entrou?
Frequentei o curso de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Nova. Entrei em 1998.

Como recorda o primeiro dia/primeira semana de aulas na faculdade?
Lembro-me perfeitamente da primeira semana, porque é uma fase marcante. É o início daquilo que projectamos, e como no meu caso se tratava de um sonho, estudar jornalismo, era um passo nesse sentido. E tudo é novo e muito diferente do que conhecíamos até então. De turmas pequenas e um meio onde todos se conhecem passamos (no caso da FCSH) para turmas enormes, com gente de todo o lado, auditórios enormes, pouca conversa entre colegas, pelo menos no primeiro dia. Depois os professores era todos "extremamente académicos", muito pouco pessoais e primavam pela distância na relação entre o professor e o aluno.. era assustador.

Era uma faculdade com tradição de praxe?
Na FCSH há uma imensa tradição anti-praxe. Mas as praxes (às quais fugi) foram feitas à mesma. Ninguém chateava ninguém para estar presente, mas o arranque das praxes do meu curso foi muito gira. Uma aula de Semiótica que recordo até hoje, dada pela Rita Marrafa de Carvalho, estudante de 4º ano do meu curso. Ela esteve muito bem porque acho que caí que nem uma patinha!

O que pensa das praxes? Quais as vantagens e desvantagens?
Detesto praxes, e o conceito que está na sua base. Acho que em alguns casos até pode haver algum espírito de companheirismo mas como os casos são tão raros a generalização negativa é a que faço...

Agora mais sobre os dias de hoje. Como é o primeiro dia de aulas, para o professor? Consegue perceber, desde logo, quem são os alunos engraçadinhos, mais problemáticos?
O primeiro dia para o professor é totalmente diferente. Habitualmente, como sou sub-directora de um curso, recebo os alunos de primeiro ano, os que chegam mesmo ao novo mundo. Ainda estão meio à nora, e a tentar tirar as medidas ao espaço. Mas é na primeira semana de aulas que se revelam, os engraçadinhos, os que não estão nem aí para aquilo, os que achamos que podem ser desafios, e os outros todos! Normalmente não fico longe da verdade, mas também já tive óptimas e péssimas surpresas.



DIZ UM ESTUDO

Um estudo, divulgado recentemente, conclui que cerca de 12% dos alunos de licenciatura ou mestrado integrado da Universidade de Lisboa no ano letivo de 2012-2013 se sentem frequentemente deprimidos ou sozinhos.

O Estudo Consumos e Estilos de Vida no Ensino Superior, realizado pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências (SICAD) e pelo Observatório Permanente da Juventude do Instituto de Ciência Sociais da Universidade de Lisboa e Conselho Nacional da Juventude, procurou aferir os hábitos na prática de desporto, alimentação, lazer, ingestão de bebidas alcoólicas e consumo de substâncias psicoativas, inquirindo através da Internet mais de três mil alunos.

O estudo revela que uma grande maioria (84%) dos alunos que afirma sentir-se sozinho declara também não ter hábitos de convivência social, como sair à noite ou ir a concertos, preferindo atividades individuais como a leitura, a escrita ou a pintura.
01.10.2013
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